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escritos pelo corpo clínico do consultório. Eles estão divididos
em duas categorias: para médicos e para leigos. Periodicamente
atualizaremos esta página com novos artigos.
Andréia Azevedo, médica otorrinolaringologista, Hospital São Camilo,
Volta Redonda-RJ. Ricardo Figueiredo, médico otorrinolaringologista,
Hospital São Camilo,Volta Redonda-RJ
Autor responsável: Andréia Azevedo, Rua 60, n 1680, ap 202, bairro
Sessenta, Volta Redonda-RJ, CEP 27261-130, fax 024 3349-8664, e-mail otosul@uol.com.br
RESUMO
Introdução: Nos dias de hoje o zumbido ainda constitui um grande
desafio aos otorrinolaringologistas. Teorias e tratamentos continuam
surgindo nos diversos trabalhos experimentais em curso, sendo difícil
para o otorrinolaringologista manter-se a par de todas elas. Revisão:
Nosso objetivo, neste artigo, é dar uma visão geral das teorias de
fisiopatologia, métodos diagnósticos e alternativas terapêuticas para o
zumbido,analisando algumas das pesquisas que vêm sendo feitas neste tema.
Conclusão:Algumas teorias e tratamentos são de consenso geral, estando a
caminho de uma maior compreensão do zumbido.
SUMMARY
Introduction: Nowadays, tinnitus is still a great challenge to all
otolaryngologists. Theories and therapies keep coming through in lots of
experiments, making it difficult for the otolaryngologist to be atualized.
DataBase: Our aim, in this article, is a general look at fisiopatology
theories, diagnosis methods and alternatives in therapy, analizing some of
the researches in this area. Conclusion: Some theories and therapies are
general sensus, in the way to a greater comprehension of the tinnitus .
PALAVRAS-CHAVE: zumbido,tinnitus, acúfenos
KEYWORDS: tinnitus, acouphenes
INTRODUÇÃO: Talvez a melhor definição de zumbido seja uma
sensação auditiva não proveniente do meio externo, parecendo proceder
de uma ou de ambas as orelhas, ou até mesmo da cabeça, sem localização
precisa de sua origem1. Também podem ser empregados os termos acúfeno
(oriundo do grego akouein, entender, phainein, parecer) e tinnitus (
oriundo do latim, introduzido por Plínio, o Velho, no século I D.C.). O
primeiro é mais empregado na literatura européia, o segundo na
americana1. A incidência do zumbido na população geral varia, de acordo
com vários estudos, entre 14 e 32 %. Segundo o National Institute of
Health, E.U.A, acomete cerca de 15 % da população americana. O paciente
pode referir-se ao zumbido através de várias comparações com sons
naturais, tais como apitos, zoeira, bater de asas, estalos, motor e
vários outros. Cerca de 80 % dos pacientes acham que o zumbido não tem
repercussão alguma na sua vida., 15 % referem alguma repercussão e ,em 5
% dos casos, pode ser incapacitante2. A primeira tentativa de
classificação dos zumbidos remonta ao ano de 1683, quando DU VERNEY
propôs dividi-los em zumbidos de origem cerebral e zumbidos de origem
otológica1. A classificação comumente mais empregada é a de SHULMAN
(1991), dividindo os zumbidos em objetivos ( audíveis, em alguns casos,
pelo examinador, nos quais se enquadram principalmente os zumbidos de
causa vascular e muscular) e subjetivos idiopáticos ( aqueles audíveis
somente pelos pacientes). Estes últimos, segundo essa classificação ,
podem ser divididos em otológicos e neuro-otológicos1. A tendência
atual, nos países de língua inglesa, é substituir o termo zumbido
objetivo por "somatosound", sendo os outros denominados
"tinnitus"1.Outra classificação freqüentemente empregada é
aquela que divide os zumbidos em origem auditiva e para-auditiva
(compreendendo os zumbidos de origem vascular e muscular), ou ainda
dividindo-os em perióticos e neuro-sensoriais3.
FISIOPATOLOGIA DO ZUMBIDO:
Várias teorias vêm sendo formuladas, nenhuma delas sendo, ainda,
capaz de explicar totalmente a fisiopatologia do zumbido, talvez pelo fato
dela ser multi-fatorial. Daremos maior enfoque às últimas pesquisas
sobre os mecanismos neurofisiológicos alterados no zumbido.
Nos últimos
anos provou-se que o principal mediador das vias auditivas é o glutamato,
um dos principais transmissores excitatórios rápidos no Sistema Nervoso
Central (AAE- aminoácidos excitatórios), ao lado do aspartato e do
homocisteato. O glutamato é formado a partir do alfa-oxo-glutamato,
intermediário do Ciclo de Krebs, pela ação da GABA-aminotransferase4.
Existem 3 principais tipos de receptores sinápticos para os AAE, quais
sejam: - tipo AMPA (alfa-amino- 3 hidróxi-5 metil- isoxazol- propionic
acid) e cainato, de respostas excitatórias rápidas e impermeáveis ao
cálcio. Os de tipo AMPA são os principais envolvidos na transmissão
sináptica fisiológica nas vias auditivas. - tipo NMDA
(N-metil-D-aspartato), de respostas excitatórias mais lentas ,permeáveis
ao cálcio e bloqueados pelo magnésio.
O Tipo Metabotrópico.
Os NMDA, AMPA e cainato estão diretamente acoplados a canais de
cátions. Os Metabotrópicos atuam através de segundos mensageiros
intracelulares 4,5.
Alguns zumbidos podem ser ocasionados por uma
disfunção das sinapses entre as células ciliadas internas (CCI) e os
neurônios auditivos primários, que utilizam o glutamato como
neurotransmissor (Fig.1). Se o glutamato possui a grande vantagem de ser
um neurotransmissor rápido ,fundamental, portanto, para os mecanismos de
audição, possui o inconveniente de ser bastante tóxico para os
neurônios quando liberados em quantidade excessiva, a chamada
"excitotoxicidade". Nessa situação, o excesso de glutamato
levaria à uma sobre-expressão dos receptores NMDA, que normalmente não
participam da transmissão sináptica nas vias auditivas. Com isso,
teríamos entrada excessiva de cálcio nos dendritos dos neurônios
auditivos primários, levando aos seus edema e ruptura. A maioria destes
neurônios em sofrimento consegue recuperar-se e restabelecer sinapses,
mas alguns, efetivamente, morrem. Acredita-se que a excitotoxicidade
esteja relacionada com as perdas auditivas ligadas à isquemia e trauma
acústico 4,5.
Os neurônios com excesso de receptores NMDA são ainda
mais sensíveis à excitotoxicidade, o que induz a um círculo vicioso e
à eternização do fenômeno, com progressão ao longo da via auditva,
até o Sistema Nervoso Central, verdadeira "epilepsia do nervo
auditivo", conforme alguns autores. Seria esta a explicação para a
manutenção do zumbido mesmo após a secção do nervo auditivo 4,5.
Vários estudos fazem uma analogia entre o zumbido e a dor, uma vez que os
receptores NMDA têm um papel importante no processo de informação
relativa à dor no SNC, nomeadamente na sensibilização central.
Antagonistas de receptores NMDA têm sido usados, com bons resultados , no
tratamento da dor neuropática 6.
Também foi demonstrado que o ácido
acetil-salicílico (AAS), medicamento sabidamente causador de surdez e
zumbidos em seres humanos, pode levar a um aumento da atividade
espontânea das vias auditivas, através de um mecanismo independente da
ciclo-oxigenase 4.
Por outro lado, sabe-se que o GABA (ácido
gama-amino-butírico) é o principal neuro-transmissor inibitório no SNC,
sendo muito pouco encontrado nos tecidos periféricos. É formado a partir
do glutamato pela ação da GAD (descarboxilase do ácido glutâmico). No
sistema auditivo está relacionado à neurotransmissão nas vias
eferentes, tanto nas mediais quanto nas laterais 4,5.
O Sistema Eferente
das vias auditivas funciona como modulador da atividade das células
ciliadas externas (CCE), verdadeiras "amplificadoras" dos
estímulos auditivos, e também como estabilizador dos neurônios auditvos
e CCI, reduzindo a hiper-estimulação do glutamato..É constituído por
dois tratos, o Trato Olivo-coclear Medial (TOM), cujos principais
transmissores são o GABA e a acetilcolina, modulador das atividades das
CCE, e o Trato Olivo-coclear Medial (TOL), cujos principais transmissores
são GABA, acetilcolina, dopamina,, encefalinas e dinorfinas, modulador da
atividade das CCI (Fig. 1). A ação de agonistas GABA tem, como veremos
posteriormente, várias aplicações clínicas, estando em investigação
o uso da dopamina na redução da atividade espontânea da fibra nervosa e
na elevação do limiar de resposta à estimulação sonora 4,5.
Figura 1- neurotransmissores na cóclea (reproduzido de Puel,JL) 4 Ach-
acetilcolina; CGRP- calcitonine gen related peptide; DA- dopamina; Enk-
encefalina;Dyn- dinorfina; NC- núcleo coclear; OSL- oliva superior
lateral; NVCMT- núcleo ventro-medial do corpo trapezóide.
Várias drogas ototóxicas são, também, capazes de produzir surdez e
zumbidos. Os mais estudados são os antibióticos aminoglicosídeos que,
ao combinar-se com receptores das membranas das células ciliadas do
Órgão de Corti, alteram a permeabilidade ao íon cálcio, afetando a
estrutura e função dos cílios e ,por fim, levando à própria
destruição celular 5.
Recentemente, vários estudos vêm demonstrando a
participação do íon zinco na neuro-transmissão das vias auditivas
centrais, particularmente no sub-núcleo coclear dorsal, e também como
regulador da atividade excitatória glutamatérgica. A carência do metal
poderia estar relacionada a alguns tipos de zumbidos 7.
Alguns autores
acreditam que os mecanismos de neuroplasticidade, que ocorrem após
lesões dos neurônios auditivos por excitotoxicidade, possam levar a um
efeito-rebote de aumento dessa mesma toxicidade,uma vez que pode ocorrer
uma alteração na inervação da CCI, com as fibras eferentes passando a
conectar-se diretamente às CCI, e não ao nervo auditivo 4.
O modelo
neurofisiológico de Jastreboff propõe associações entre a fonte sonora
(cóclea), áreas subcorticais de detecção do zumbido, áreas corticais
de percepção e avaliação do som, associações emocionais (sistema
límbico) e Sistema Nervoso Autônomo. Se o som for classificado como
neutro, seu sinal será bloqueado no nível sub-consciente das vias
auditivas internas. Entretanto, se for classificado como importante,
atrairá atenção e terá uma percepção mais eficiente 2,8.
Associações negativas, tais como condicionamento reflexo, medo do novo e
desconhecido e a presença contínua e prolongada de um estímulo que
está fora do controle, podem levar ao monitoramento do zumbido, com
problemas de atenção e concentração, e também à ativação do
Sistema Nervoso Autônomo, levando, em última instância, à ansiedade,
stress, insônia e depressão 8. A compreensão deste modelo, aliado à
neuroplasticidade , são fundamentais para a compreensão da T.R.T
(Tinnitus Retraining Therapy), como veremos posteriormente.
ZUMBIDOS DE ORIGEM PARA-AUDITIVA (MUSCULARES E VASCULARES):
Tratam-se de zumbidos relacionados a causas identificáveis e, na
maioria das vezes , tratáveis. Embora significativamente mais raros que
os zumbidos ditos "auditivos", revestem-se de grande
importância por serem de tratamento mais preciso e definitivo. As
principais causas de zumbidos de origem muscular são a mioclonia de
músculos da orelha média e o tremor palatal, também conhecido como
mioclonia palatal 9,10. Normalmente, o paciente refere zumbidos tipo
"clique' ou bater de asas de borboleta, em alguns casos fugazes e
pouco incômodos, em outros bastante incômodos, podendo ser ouvidos por
outras pessoas (zumbido objetivo). No caso do tremor palatal, observa-se
à oroscopia contrações rítmicas involuntárias do palato mole 10,11. A
nasofibroscopia pode ser bastante útil para o diagnóstico 12, devendo
também ser afastadas causas centrais 10. O tratamento pode ser feito com
drogas como o clonazepam, a carbamazepina e o sumatriptano 10,11. Nos
casos de tremor palatal, infiltrações de toxina botulínica no palato
mole podem também ser empregadas 9 Os zumbidos vasculares ou pulsáteis
ocorrem quando a cóclea detecta uma alteração de fluxo em vasos
sanguíneos próximos à orelha. São sincrônicos aos batimentos
cardíacos, sendo a maioria subjetivos 9. Entretanto, são objetivos em
uma percentagem muito superior á dos zumbidos neuro-sensoriais. Como
principais exemplos podemos citar 9: 1- Neoplasias vasculares, como os
tumores glômicos 2- Malformações arteriais, sendo as mais comuns o
trajeto aberrante da carótida, estenose ou aneurisma da artéria
braquiocefálica e persistência da artéria estapediana. 3-
Malformações venosas, sendo a mais comum o bulbo jugular deiscente. 4-
Hum venoso, decorrente de turbulência do fluxo da veia jugular.
Nos tumores glômicos, a otoscopia pode estar alterada, verificando-se
uma massa azulada retro-timpânica. Na imitanciometria podemos verificar
oscilações na agulha do imitanciômetro sincrônicas aos batimentos
cardíacos 9. Os zumbidos vasculares têm tratamento específico, muitas
vezes cirúrgico, sendo de fundamental importância o diagnóstico
precoce. Os exames complementares mais úteis são os de imagem, como a
tomografia computadorizada, ressonância nuclear magnética,
aretriografias, Doppler do sistema vertebral e carotídeo e,
principalmente, a angioressonância nuclear magnética do sistema
vértebro-basilar 9.
ZUMBIDOS DE ORIGEM AUDITIVA:
Constituem a grande maioria dos casos de zumbidos, sendo nesse grupo
que encontramos os zumbidos de manejo mais difícil. Normalmente, nos
zumbidos de longa data, o paciente já percorreu uma longa
"via-crúcis" de consultas a vários especialistas e, por vezes,
tratamentos alternativos, sendo comum ouvirem a "clássica
sentença": "isso não tem cura ! Você vai ter que aprender a
conviver com isso." As causas para os zumbidos de origem auditiva
são inúmeras, sendo que aquelas originadas nas orelhas externa e média
têm ,mais freqüentemente, tratamento específico, com bons resultados.
Os zumbidos originados da orelha interna e vias auditivas periféricas e
centrais podem ser de manejo muito difícil, uma vez que, em muitos casos,
o zumbido possa ser seqüela de processos anteriores, que não estão mais
presentes ( zumbido seqüela x zumbido sintoma) 3,13. O quadro 1 mostra as
principais causas de zumbidos de origem auditiva:
ORELHA EXTERNA: 1- ROLHA DE CERUMEN 2- OTITES EXTERNAS 3- TUMORES DO
CAE
ORELHA MÉDIA: 1- OTITES MÉDIAS AGUDAS E CRÔNICAS. 2- OTOSCLEROSE. 3-
DISFUNÇÕES TUBÁRIAS. 4- DISJUNÇÕES DE CADEIA OSSICULAR. 5- TUMORES DA
ORELHA MÉDIA. 6- TIMPANOSCLEROSE.
ORELHA INTERNA: 1- TRAUMA ACÚSTICO. 2- DISACUSIAS METABÓLICAS. 3-
PRESBIACUSIA. 4- DOENÇA DE MÉNIÈRE. 5- OTOSCLEROSE. 6- DISACUSIAS
AUTO-IMUNES. 7- ANEMIAS CRÔNICAS. 8- OTOTOXICIDADE. 9- DOENÇAS
ISQUÊMICAS DA ORELHA INTERNA. 10- FÍSTULA PERI-LINFÁTICA. 11- SEQÜELAS
DE FRATURAS DE OSSOS TEMPORAIS.
VIAS AUDITIVAS: 1- SCWHANNOMA DO ACÚSTICO. 2- PRESBIACUSIA. 3-
ESCLEROSE MÚLTIPLA. 4- TUMORES DO SNC. Quadro 1- principais causas de
zumbidos auditivos ou neuro-sensoriais
Segundo alguns autores, certos zumbidos podem ter origem psicogênica,
descartando-se outras possibilidades 14. Tal diagnóstico é, no mínimo,
um pouco delicado, uma vez que a maioria dos zumbidos apresenta
alterações emocionais associadas. A influência dos distúrbios da
articulação têmporo-mandibular (ATMs) nos zumbidos é tema bastante
controverso. Segundo vários autores, o zumbido poderia ser causado por
alterações na própria cápsula articular, o que constituiria, na
verdade, um zumbido para-auditivo devido à proximidade da ATM com o
ouvido externo 15. Nesse caso, o paciente pode referir zumbidos do tipo
"estalos", mas por vezes também do tipo "apito".
Também acredita-se que os distúrbios da ATM possam cursar com uma
disfunção tubária associada, por mau posicionamento da mandíbula ou
interferência com o músculo tensor do véu palatino, gerando zumbidos na
orelha média 16. Sabe-se que os músculos mastigatórios, o tensor do
tímpano e o tensor do véu palatino têm inervação oriunda do nervo
trigêmeo. Por esta razão, segundo alguns autores, a hiperatividade dos
músculos mastigatórios poderia levar a espasmos do músculo tensor do
tímpano, com conseqüente aumento da pressão na orelha interna 16.
TRATAMENTO:
TRATAMENTO DA DOENÇA DE BASE:
Parte mais importante do tratamento nos zumbidos para-auditivos e
naqueles oriundos de doenças das orelhas externa e média, em que há
possibilidade de correção do fator causal. Entretanto, também é
importante em zumbidos causados por doenças da orelha interna e vias
auditivas, como o Schwannoma do VIII par, disacusias metabólicas e
disacusias auto-imunes.
PREVENÇÃO:
Além das medidas acima, várias outras têm sido empregadas no sentido
de prevenção das lesões auditivas em populações de risco, tais como
trabalhadores expostos ao ruído, idosos e diabéticos. Podemos citar,
além do uso de E.P.I. (equipamentos individuais de proteção) em
trabalhadores expostos ao ruído, o uso de magnésio, que bloqueia os
receptores NMDA 17. Outras drogas como o ginkgo biloba Egb 761 e a
trimetazidina também têm sido utilizadas com esta finalidade.
MEDICAMENTOS:
Vários tipos de medicamentos vêm sendo utilizados ao longo das
últimas décadas para o tratamento do zumbido, sempre com resultados
parciais. Procedimentos cirúrgicos, uso de mascaradores e terapias
alternativas as mais variadas também vêm sendo realizadas.Apesar dos
resultados irregulares e de ainda estarmos longe da cura definitiva do
zumbido, sempre haverá possibilidades terapêuticas, buscando-se, pelo
menos, um alívio do incômodo causado pelo zumbido. Os pacientes
tornam-se desesperançosos com a Medicina, participando de grupos de
pacientes com zumbido na Internet, onde trocam experiências e, muitas
vezes, manifestam seu descrédito com as perspectivas terapêuticas
oferecidas pelos médicos. O extrato seco de ginkgo biloba Egb 761 é uma
das drogas com melhores resultados terapêuticos , principalmente quando
empregada na dose de 120 mg duas vezes ao dia. Age como anti-oxidante,
aumenta o fluxo sanguíneo na orelha interna e melhora o suprimento de
glicose e oxigênio para as células ciliadas 18. É praticamente
desprovido de efeitos colaterais e contra-indicações, alguns pacientes
apresentando cefaléia moderada. O Clonazepam é um benzodiazepínico com
atividade anti-convulsivante, que age como potencializador dos efeitos
inibitórios do GABA. Pode ser usado na forma de gotas ou comprimidos (0,5
mg), dose diária ideal variando de 0,25 a 0,5 mg, uma ou duas vezes ao
dia, lembrando que 1 gota equivale a aproximadamente 0,1 mg 19. Como
principal efeito colateral temos a sonolência e a possibilidade de
dependência, o que podemos evitar com a retirada gradativa, o mais
precoce possível. Está contra-indicado em portadores de glaucoma. A
Carbamazepina é também um anti-convulsivante que pode ser empregado
quando há positividade no teste da Lidocaína, particularmente em
zumbidos não-responsivos aos tratamentos convencionais. A Lidocaína age
como estabilizador da membrana celular, aumentando o influxo de sódio nos
neurônios do nervo coclear e reduzindo a despolarização. Entretanto,
possui alguns efeitos colaterais, tais como fibrilação ventricular,
sonolência e tonteiras 19,20. O teste deve, em nossa opinião, ser
realizado em ambiente hospitalar, preferencialmente com a assistência de
um anestesiologista. A via de administração é endovenosa, dose de 1 a 2
mg/kg de cloridrato de Lidocaína a 2 %, infundido em cerca de 3 minutos
20. Se houver resposta positiva ao teste, ou seja, melhora do zumbido,
introduz-se a carbamazepina, em doses crescentes, de 50 a 600 mg ao dia,
por um período máximo de 3 meses 20. Como efeitos colaterais da
carbamazepina podemos citar sonolência, vertigem e cefaléia. Os
anti-depressivos agem reduzindo as respostas auditivas e sobre os
componentes emocionais do zumbido, podendo ser empregados a amitriptilina,
fluoxetina e sulpiride 19.Entretanto, seu emprego deve ser feito com
cuidado, pois sabe-se que, em cerca de 1 % dos casos, os inibidores da MAO
podem induzir zumbidos, reversíveis com a suspensão do tratamento 19.
Sabe-se que a cóclea é a estrutura com maior teor de zinco do corpo
humano. Alguns autores recomendam a suplementação de zinco em zumbido,
particularmente em idosos e pacientes com hipozincemia (valores séricos
inferiores a 0,9 microgramas/litro) 19. Entretanto, sabe-se que as taxas
séricas de zinco não reproduzem fielmente as taxas intra-cocleares , o
que pode ser um fator limitante para o seu emprego terapêutico. Deve ser
usado na dose de 80 mg duas vezes ao dia, por períodos de 1 a 2 meses,
podendo ser associado ao ácido pangâmico e piridoxina.
NOVAS PERSPECTIVAS MEDICAMENTOSAS:
A Trimetazidina é uma droga anti-isquêmica usada na prevenção da
angina pectoris. Age aumentando a produção de ATP, ao desviar o
metabolismo dos ácidos graxos para o metabolismo glicídico, reduzindo a
acidose celular, a sobrecarga de cálcio e a lesão induzida por radicais
livres de oxigênio 19. Não possui nenhuma ação hemodinâmica, somente
metabólica. Alguns estudos demonstraram melhora significativa de zumbidos
de diversas causas, particularmente zumbidos recentes 21, sendo indicado
para o tratamento do zumbido na Europa. Deve ser empregada na dose de 60
mg ao dia, divididos em 3 tomadas, sendo praticamente desprovido de
efeitos colaterais e contra-indicações. A Nimodipina é um antagonista
dos canais de cálcio do tipo L, que age reduzindo o cálcio livre na
perilinfa, bloqueando os zumbidos induzidos pelo AAS e quinino. Age
também sobre a motricidade lenta das células ciliadas externas e sobre a
liberação de neuro-transmissores, além de uma ação a nível central
19. Como tem excelente passagem pela barreira hemato-encefálica, pode ser
utilizada em doses menores, reduzindo os efeitos colaterais. Seu emprego
em zumbido necessita ainda de maiores estudos, mas parece bastante
promissor, particularmente em presbiacusia. O piribedil é um agonista
dopaminérgico que mostrou, em experiências com animais, efeito protetor
contra o trauma acústico e isquemia coclear, quando aplicado diretamente
na cóclea 19. Entretanto, jamais foi testado em seres humanos por esta
via. Antagonistas do glutamato têm sido estudados, com algumas
limitações devido a efeitos colaterais importantes 19. A caroverina é a
mais estudada destas drogas, principalmente na Índia 14. Inbidores da
gabatransaminase reduzem o potencial endococlear, provavelmente por ação
na estria vascular, diminuindo a atividade espontânea do nervo coclear.
Estudos têm sido realizados com a vigabatrina, com bons resultados,
limitados por efeitos colaterais neuro-psiquiátricos importantes 19.
Nenhuma destas drogas está disponível no Brasil. O uso de cateteres
trans-timpânicos, permitindo a infusão de medicamentos através da
janela redonda, oferece ótimas perspectivas terapêuticas, reduzindo os
efeitos colaterais sistêmicos de muitas drogas, podendo ser citados a
caroverina, corticóides, e anti-oxidantes 19.
TERAPIAS ALTERNATIVAS:
Alguns estudos advogam o tratamento do zumbido por
eletro-estimulação, tanto interna (através de cateteres
intra-cocleares), quanto externas (trans-cutâneas), baseando-se nas
analogias entre zumbido e dor, e em uma possível hiperpolarização das
células ciliadas. Entretanto, os resultados são pouco conclusivos,
tornando o seu emprego bastante limitado 22. Acupuntura e homeopatia têm
sido referidas como possibilidades terapêuticas para o zumbido 23, mas a
análise desta eficácia torna-se dificultada pelas diferenças teóricas
entre as Medicinas alopática tradicional, Homeopática e Oriental. O
biofeedback é uma técnica de relaxamento voluntário, em que o paciente
aprende a controlar seus parâmetros fisiológicos, tais como os
batimentos cardíacos. Como o zumbido não setrata de um parâmetro
mensurável, o objetivo principal é o relaxamento, usando-se a
eletromiografia do músculo frontal como referência 23,24. Vários
estudos mostraram significativa melhora do zumbido, particularmente nos
casos de trauma acústico, presbiacusia e traumatismo craniano ou cervical
24. Pesquisas estão sendo realizadas no sentido de promover a
regeneração de células ciliadas lesadas, seja através do transplante
de células vestibulares sadias, seja pela descoberta do gen que permite a
regeneração de células nervosas em aves 14,o que poderá também
contribuir para o tratamento do zumbido.
TERAPIAS COGNITIVAS E COMPORTAMENTAIS:
Baseiam-se na modificação direta dos comportamentos através da
aplicação de técnicas de "descondicionamento", permitindo ao
paciente modificar suas reações aos estímulos. O principal exemplo é a
terapia de Habituação , ou T.R.T.(Tinnitus Retraining Therapy), baseada
no fato de que aproximadamente 75 % das pessoas com zumbidos não são
incomodadas por isto, sem nenhuma diferença nas características físicas
do som (zumbido) em relação às pessoas que sofrem com eles 25. Envolve
dois princípios básicos: A orientação, que é feita através de
reuniões periódicas, com palestras e troca de experiências entre os
pacientes, visando desmistificar o zumbido, e permitir a compreensão da
terapia propriamente dita 2; O enriquecimento sonoro, que é feito com a
exposição a um som contínuo e monótono, de intensidade inferior ao
zumbido, para não configurar um mascaramento. O paciente deve ser
orientado a colocar o som em uma intensidade em que ele seja capaz de
ouvir nitidamente o zumbido e o som neutro. Para esse enriquecimento podem
ser usados os geradores de som, morfologicamente semelhantes às próteses
auditivas, com o inconveniente de serem bastante caros, pois devem ser
usados em ambos as orelhas. Como alternativas podem ser empregados cds com
sons ambientais, facilmente encontrados em lojas de cds. Existem, no
mercado americano, travesseiros com alto-falantes ("pillow
sound") que permitem uma melhor distribuição do som para o paciente
durante o sono 14. O enriquecimento sonoro deve ser feito por cerca de 8
horas diárias, sendo o tratamento prolongado por 18 a 24 meses. Deve ser
ressaltado que em pacientes com perda auditiva severa é importante a
protetização prévia, que muitas vezes, por si só, é capaz de melhorar
significativamente a tolerância do paciente ao zumbido, da mesma forma
que o implante coclear nos casos de surdez profunda. O modelo de
orientação e enriquecimento sonoro é melhor realizado através da
realização dos chamados "Grupos de Zumbido", já realizados em
vários pontos do mundo. No Brasil, o pioneiro foi o GAPZ, da Universidade
de São Paulo, coordenado pela Prof. Tanit Sanchez 2. Em 2002 realizamos,
seguindo este modelo e também com resultados muito bons, o primeiro Grupo
desse gênero em Volta Redonda-RJ, o PAZ (Programa de Auto-ajuda ao
Zumbido) 26. A Habituação é considerada, hoje em dia, um importante
tratamento coadjuvante para o zumbido.
COMENTÁRIOS FINAIS:
O zumbido ainda constitui um grande desafio para todos nós, fonte de
frustrações, tanto para médicos,quanto para pacientes. Novas hipóteses
fisiopatológicas e novas modalidades de tratamento surgem todos os anos,
formando um mosaico que devemos processar para podermos oferecer o melhor
possível aos nossos pacientes.Se a cura não for possível, pelo menos um
alívio ou uma chance de encarar melhor este problema de solução tão
difícil.
AGRADECIMENTOS:
A todos os pacientes e colaboradores do primeiro PAZ, Programa de
Auto-ajuda ao Zumbido, de Volta Redonda-RJ, 2002.
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